Em Lençóis (BA), o turismo investe na educação para cuidar do futuro do território
Pousadas, restaurantes e empresas locais participam do Cultive uma Eco-Escola no Centro Educacional Renato Pereira Viana (CERPV) e ajudam a aproximar educação, sustentabilidade e desenvolvimento de um dos principais destinos de ecoturismo da Chapada Diamantina

Em Lençóis, na Chapada Diamantina (BA), preservar o território também significa preparar a juventude que vai viver, trabalhar e empreender no futuro. É a partir dessa compreensão que empresas ligadas ao turismo local estão apoiando a educação pública por meio do Cultive uma Eco-Escola, iniciativa que conecta o setor privado a escolas participantes do Programa Eco-Escolas Brasil.
A proposta ganha ainda mais relevância em um município cuja economia está fortemente ligada ao turismo de natureza. Porta de entrada da Chapada Diamantina, Lençóis reúne patrimônio natural e cultural e, em 2026, está entre os sete destinos brasileiros selecionados para representar o país no Best Tourism Villages, iniciativa da ONU Turismo que reconhece localidades rurais comprometidas com a preservação do patrimônio, a sustentabilidade e o desenvolvimento local. Nesse contexto, investir em educação para a sustentabilidade deixa de ser uma ação isolada e passa a fazer parte de uma discussão mais ampla sobre o próprio futuro do destino.






Educação que conecta escola e território
O Centro Educacional Renato Pereira Viana (CERPV) (CERPV) é uma instituição pública estadual fundada em 1951 e a única escola de Ensino Médio do município. A escola atende jovens de Lençóis, da comunidade rural de Tanquinho e outras comunidades rurais da região como a comunidade quilombola do Remanso.
Por meio do Cultive uma Eco-Escola, pousadas, restaurantes e empresas parceiras passaram a contribuir com a formação de estudantes conectados à valorização e à proteção do patrimônio natural e cultural da região e do Parque Nacional da Chapada Diamantina.
Para a escola, o apoio representa mais do que um aporte financeiro. É também uma aproximação entre diferentes setores do território. “Receber o apoio dos cultivadores significa reconhecer que a educação para a sustentabilidade é uma responsabilidade compartilhada”, afirma Aline Reis, vice-diretora do CERPV. Segundo ela, a parceria permite ampliar projetos, vivências e ações práticas relacionadas à preservação ambiental, ao consumo consciente, à valorização da cultura local e ao desenvolvimento sustentável.
A aproximação também permite que os estudantes percebam uma conexão direta entre aquilo que aprendem na escola e os desafios e oportunidades existentes em Lençóis. Em uma cidade turística, explica Aline, aproximar escolas, empresas e setor turístico é fundamental para construir uma visão de desenvolvimento que concilie geração de renda, qualidade de vida e conservação do patrimônio natural e cultural.
Quem vive do turismo também cuida do destino
Entre os apoiadores estão empreendimentos com diferentes relações com a atividade turística. A Pousada Vila Serrano, por exemplo, atua no setor de hospedagem e tem a sustentabilidade como um princípio presente desde a própria construção do empreendimento. “Sustentabilidade é o alicerce de qualquer negócio”, afirma a proprietária Sandra Maldonado, que vê o apoio ao projeto como uma forma de fortalecer sua relação com a comunidade e demonstrar seu compromisso com a Chapada Diamantina.
A Casa Serrana, também ligada à atividades culturais e alimentação saudável, considera que a educação dos jovens é fundamental para o futuro do território. Para a empresa, integrar turismo, educação e sustentabilidade pode abrir caminhos para um desenvolvimento mais consistente de Lençóis.
“Nós temos uma linha de ação muito compatível com a proposta do Eco-Escolas. Buscamos trabalhar com a sustentabilidade desde o início, na concepção da ideia, na definição dos alimentos e produtos a serem disponibilizados e acreditamos que esta parceria vai nos fortalecer neste sentido”, afirmam as irmãs Inês e Luciana Caribe, sócias do empreendimento turístico.
O Cozinha Aberta, restaurante que integra o projeto, também relaciona diretamente a atividade turística com a educação. O empreendimento destaca que trabalha em um destino cuja economia depende das belezas e experiências proporcionadas pela natureza. Para a empresa, a educação ambiental pode contribuir para mudanças concretas na comunidade, como a redução de resíduos, a reciclagem, o uso consciente da água e uma atuação mais responsável dos profissionais que trabalham com visitantes.
“Essa iniciativa é positiva tanto para os jovens, que se sentem incentivados e valorizados, quanto para os empresários, que contribuem diretamente para melhorias em toda a comunidade”, pontua a proprietária do Cozinha Aberta, Déborah Prado Marcondes.
Já a Nativa Ancestral, empresa de artesanato brasileiro , tem uma relação direta com o território e com a cultura de Lençóis. Para o proprietário Marcos Kornfeld, a sustentabilidade precisa estar presente nas escolhas e práticas cotidianas, e não apenas no discurso. É por isso que a empresa valoriza iniciativas que aproximam os jovens de experiências concretas e os estimulam a participar ativamente da construção de soluções para o território.
“Sustentabilidade não é simplesmente uma pauta politicamente correta a ser discutida. É uma prática que precisa estar incorporada nas pequenas coisas”, destaca. Para a empresa, projetos que colocam a sustentabilidade em prática ajudam os estudantes a compreender que transformar a realidade exige mais do que conhecer e discutir os problemas: é preciso participar, agir e encontrar um propósito por trás dessas ações.
Um compromisso que vai além da marca
A participação do setor privado também mostra que o apoio ao Eco-Escolas não é pensado apenas como uma oportunidade de exposição. Para os parceiros, a associação das marcas a uma iniciativa de educação e sustentabilidade é positiva, mas aparece como consequência de um compromisso mais amplo com a comunidade.
A ACEL, Associação Comercial e Empresarial de Lençóis, que reúne o setor empresarial do município, entende que as empresas fazem parte da comunidade e dependem de um território saudável e valorizado para prosperar. “Investir em educação e sustentabilidade é investir no próprio território onde nossas empresas estão inseridas”, afirma Uelma D’Oliveira, presidente da ACEL.
Para a entidade, não existe turismo sustentável sem uma comunidade consciente e envolvida. A educação ajuda a formar uma geração capaz de compreender que desenvolvimento, turismo e conservação precisam caminhar juntos.
A Nativa Ancestral compartilha dessa perspectiva. A empresa afirma que não olha para o apoio prioritariamente pelo viés da exposição de marca. “Foi um investimento genuíno, mas fico muito feliz em ter nossa marca vinculada ao projeto”, afirma.
Preparar quem vai construir o futuro de Lençóis
A permanência dos jovens no território aparece como uma das dimensões mais importantes dessa aproximação. Para a Nativa Ancestral, criar oportunidades de negócios, trabalho e projetos em Lençóis pode ajudar a fortalecer a cultura local e evitar que os jovens precisem deixar a região para construir seu futuro.
Para o CERPV, aproximar os estudantes das empresas e do setor turístico também permite que eles conheçam melhor as atividades econômicas existentes no município, seus desafios e suas oportunidades. A escola pretende estimular práticas relacionadas à redução de resíduos, à regeneração do ecossistema, ao consumo responsável e à valorização do território, formando jovens capazes de atuar como agentes de transformação em suas comunidades e conectados aos critérios e metodologias do Programa Eco-Escolas.
É essa conexão que dá sentido ao Cultive uma Eco-Escola em Lençóis. De um lado, uma escola pública que recebe apoio para ampliar sua atuação na formação dos estudantes para além da sala de aula. Do outro, empresas que estão dispostas a agir pela conservação e valorização do território onde atuam por meio do apoio aos jovens da comunidade.
Em um destino que busca reconhecimento internacional por seu patrimônio, sustentabilidade e desenvolvimento local, a experiência mostra que pensar o turismo sustentável também é pensar na formação de quem vai viver e trabalhar nesse território no futuro. Cuidar do destino, começa por cultivar as suas sementes e apoiar, na prática, o fortalecimento da educação.