O Futuro é Azul: encontro na São Paulo Climate Week reforça o papel do oceano no centro da ação climática
Evento reuniu representantes do governo, ciência, sociedade civil, comunidades e setor privado para discutir soluções baseadas no oceano, Economia Azul e caminhos para o financiamento climático
O oceano esteve no centro das discussões sobre a agenda climática durante o evento “O Futuro é Azul: O oceano no centro da ação climática”, realizado em 3 de agosto, na Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), como parte da programação da São Paulo Climate Week 2026. O encontro reuniu especialistas, pesquisadores, representantes do poder público, organizações ambientais, comunidades costeiras, investidores e setor privado para debater como o oceano pode impulsionar soluções diante dos desafios climáticos atuais.
Promovido pelo Instituto Ambientes em Rede (IAR) e pelo Instituto Aprender Ecologia, com apoio institucional do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e da Conservação Internacional Brasil (CI-Brasil), e parceria da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), o evento contou com representantes de instituições como o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO), Fundação Grupo Boticário, Conservação Internacional Brasil (CI-Brasil), Oceana Brasil, Instituto Linha d’Água, Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), Voz dos Oceanos, Ocean Energy Pathway e Cerveja Praya.
A programação também reuniu representantes da comunidade científica e acadêmica, incluindo a Universidade da Califórnia, Santa Barbara (UCSB), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Escola de Guerra Naval (PPGEM/EGN), entre outras organizações dedicadas à agenda oceânica e climática.
Durante a programação, se destacou a necessidade de integrar conhecimento científico, políticas públicas, participação social e investimentos para fortalecer a proteção dos ecossistemas marinhos e costeiros e ampliar a resiliência das comunidades que dependem do oceano.
Na abertura das discussões, a CEO e diretora-executiva da COP30, Ana Toni, destacou que a Conferência do Clima realizada em Belém representou uma oportunidade histórica para consolidar o oceano como parte da agenda climática global.
“Não estamos mais trazendo o oceano para a pauta climática. O oceano já está nessa agenda. Agora precisamos trazer outros atores para essa conversa”, afirmou. Segundo ela, temas como energia, desenvolvimento econômico e sustentabilidade precisam incorporar a perspectiva oceânica, inclusive nos debates políticos e sociais dos próximos anos.
Ana Toni também ressaltou a importância de levar a agenda climática para diferentes espaços de decisão, incluindo os debates nacionais e as eleições, ampliando o envolvimento da sociedade na construção de soluções.
Curadora do evento e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), além de Enviada Especial para o Oceano da COP30, Marinez Scherer destacou a importância de a agenda oceânica ganhar cada vez mais espaço nos debates climáticos e nas tomadas de decisão. Durante sua participação, ressaltou que o avanço dessa pauta depende do reconhecimento de diferentes vozes e saberes, incluindo o protagonismo feminino na conservação e na gestão dos oceanos.
“O protagonismo feminino na agenda oceânica já é uma realidade. Precisamos ampliar esse reconhecimento e garantir que essas vozes estejam cada vez mais presentes nos espaços de decisão”, afirmou durante a roda de conversa “Mulheres do Mar — Oceano e Clima”, que abriu a programação do encontro.
A presidente do Instituto Ambientes em Rede e coordenadora nacional do Programa Bandeira Azul Brasil, Leana Bernardi, reforçou a importância da cooperação entre diferentes setores para transformar conhecimento em ação e fortalecer a conservação dos ambientes costeiros. Destacou também o papel do Programa Bandeira Azul como uma ferramenta de gestão, educação ambiental e mobilização de diferentes atores em torno da qualidade ambiental, segurança, turismo sustentável e proteção dos ecossistemas marinhos e costeiros.
“A conservação dos ambientes costeiros depende de uma atuação integrada, que envolva governos, comunidades, ciência e sociedade”, destacou.
A velejadora, escritora e líder da iniciativa Voz dos Oceanos, Heloísa Schurmann, compartilhou sua experiência de décadas de relação com o mar e destacou como as mudanças climáticas já transformam a dinâmica dos oceanos. Segundo ela, alterações nos padrões climáticos, eventos extremos e impactos observados durante suas expedições reforçam a necessidade de ampliar a compreensão sobre a conexão entre oceano e clima.
Ana Paula Prates, representante do Departamento de Oceano e Gestão Costeira do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), destacou o papel estratégico das áreas marinhas protegidas na conservação dos ecossistemas e no enfrentamento das mudanças climáticas.
Segundo Ana Paula, as unidades de conservação marinhas são instrumentos fundamentais de adaptação e mitigação climática, contribuindo para a proteção da biodiversidade e para a manutenção dos serviços ecossistêmicos. Ela ressaltou ainda que a saúde do oceano está diretamente relacionada ao bem-estar da sociedade.
A representante do MMA também reforçou a importância de avançar em agendas como as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), o Planejamento Espacial Marinho e a Gestão Costeira Integrada como estratégias para fortalecer a conservação e promover uma gestão sustentável dos territórios costeiros.
Conhecimento e informação para a agenda oceano-clima
O painel “Conhecimento e informação para a agenda oceano-clima” reuniu pesquisadores, representantes governamentais e lideranças de diferentes setores para discutir a importância da ciência e da informação como base para decisões mais eficientes.
Com moderação de Alexander Turra, professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e coordenador da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, o painel contou com representantes de instituições como o Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), Universidade Federal do Ceará (UFC) e Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Os participantes destacaram a necessidade de construir pontes entre ciência, conhecimento técnico e saberes locais, incluindo a participação de comunidades costeiras, pescadores e povos tradicionais na elaboração de políticas públicas.
A integração desses diferentes conhecimentos foi apontada como essencial para fortalecer o planejamento espacial marinho e produzir decisões mais adequadas à realidade dos territórios.
Soluções baseadas na natureza e proteção dos ecossistemas
As discussões sobre soluções baseadas no oceano reforçaram o papel dos ecossistemas marinhos e costeiros como aliados no enfrentamento das mudanças climáticas.
Entre os temas abordados estiveram a conservação de manguezais, proteção da biodiversidade, direito ecológico, fortalecimento das unidades de conservação e estratégias para garantir a integridade ambiental dos ecossistemas.
Os participantes ressaltaram ainda a importância de incluir as comunidades costeiras nos processos de decisão, considerando especialmente as comunidades pesqueiras e populações tradicionais que possuem relação direta com esses ambientes.
A preservação dos ecossistemas marinhos foi apresentada como uma estratégia que combina benefícios ambientais, sociais e econômicos, contribuindo para a resiliência dos territórios costeiros.
Economia Azul: transformação econômica sustentável, equitativa e justa
O painel “Economia Azul: transformação econômica sustentável, equitativa e justa” reuniu representantes da Oceana Brasil, Instituto Aprender Ecologia, Ocean Energy Pathway, Escola de Guerra Naval e Universidade da Califórnia, Santa Barbara para discutir oportunidades econômicas relacionadas ao oceano.
Os debates abordaram temas como energia limpa e renovável, incluindo a energia eólica offshore, proteção de áreas de relevância ambiental, conservação da biodiversidade e novas formas de desenvolvimento econômico alinhadas à sustentabilidade.
Os participantes reforçaram que a Economia Azul deve estar associada a uma transição justa, garantindo que comunidades costeiras sejam consideradas nos processos de planejamento e beneficiadas pelas novas oportunidades.
Do discurso ao investimento: financiando soluções baseadas no oceano
O último painel do evento discutiu caminhos para transformar compromissos climáticos em investimentos concretos. Com participação de representantes do BNDES, Instituto Clima e Sociedade (iCS), FUNBIO, Fundação Grupo Boticário, Instituto Linha d’Água e setor privado, o debate abordou modelos de financiamento capazes de apoiar iniciativas de resiliência costeira, conservação marinha e soluções baseadas na natureza.
Os participantes destacaram a importância de aproximar políticas públicas, investidores e projetos locais, criando mecanismos financeiros capazes de fortalecer municípios costeiros e ampliar a capacidade de implementação de ações sustentáveis.
A discussão também ressaltou o papel de instituições financeiras como articuladoras de uma nova lógica de investimento, conectando recursos, estratégias ambientais e iniciativas que promovam impactos positivos para o oceano e para as comunidades.
O oceano como parte da solução climática
Ao longo de toda a programação, o encontro reforçou uma mensagem central: proteger o oceano é parte essencial da resposta global às mudanças climáticas.
A diversidade de instituições presentes evidenciou que o avanço da agenda oceano-clima depende de uma atuação conjunta entre ciência, governo, comunidades, setor privado e sociedade civil.
Com diálogo, integração de conhecimentos e construção coletiva, “O Futuro é Azul” consolidou um espaço de articulação para fortalecer soluções baseadas em evidências e ampliar o protagonismo do oceano nas decisões climáticas.